• Aline Mesquita

Um novo renascimento para as ciências, a imprensa e as artes

Atualizado: Jul 15

No início de abril desse ano escrevi uma crônica, que foi publicada no site da Agência Riobaldo - Conteúdo Cultural, e nela eu falava de uma forma um pouco otimista sobre os rumos da sociedade com o conhecimento e a cultura em geral, em razão da pandemia de covid-19. Quase 4 meses se passaram e ao longo desse tempo, muitas pessoas desrespeitaram as recomendações de isolamento e só agora o prefeito de Porto Alegre resolveu adotar medidas mais duras em relação à circulação de pessoas. As perspectivas já não são tão otimistas, muitas vidas foram perdidas, mas mantenho a esperança de que as pessoas ao menos aprendam uma lição, por isso republico aqui integralmente o texto a seguir:


O ano de 2020 já deixou sua marca na história. Uma pandemia de proporções globais sacudiu o mundo e, o mês de março, para nós brasileiros, será lembrado como o mês que virou nossas vidas de cabeça para baixo. As ruas da cidade, as praças e parques, os estabelecimentos comerciais, as escolas e demais órgãos que outrora costumavam compor a nossa sociedade, cheios de vida e circulação de pessoas, agora dão lugar ao vazio e ao distanciamento social. A gravidade do problema sanitário impôs à maioria das pessoas o confinamento em suas casas e, consequentemente, uma mudança brusca em suas rotinas.


A realidade, duríssima, que se coloca diante de nós a cada dia, tem consequências que não podemos prever; mas por outro lado, traz consigo algo que também se impõe porque também é real e sólido: o conhecimento. Na história, o período da idade média ficou conhecido como a “idade das trevas”, pela sua negação a todos os avanços que ocorreram em séculos anteriores; e o período que corresponde ao final da idade média é conhecido como “Renascimento”, pela sua retomada de todas as áreas do conhecimento que haviam sido negligenciadas por tanto tempo. Se nos últimos anos observamos um gradual avanço do obscurantismo que nos aproximou da idade média, de pensamentos retrógrados do período feudal, de descrédito e desvalorização da ciência, da imprensa, da cultura e das artes, entre outras áreas de conhecimento, agora por outro lado, em poucas semanas, vimos ressurgir a importância e o poder de mobilização de todas essas áreas e conseguimos vislumbrar através disso um novo e necessário renascimento.


Se a falta de uma única vacina, a da covid-19, que está em desenvolvimento, nos coloca de joelhos nessa situação, imaginem o que faria a falta de todas as outras. Não há como sustentar o criminoso pensamento negacionista e anti-científico no cenário atual. Neste momento, o conhecimento científico está no comando, guiando as decisões de todos os líderes políticos do mundo (com algumas raras e desastradas exceções) e deveria ser sempre assim. E que ótimo que o público parece estar reconhecendo isso. A imprensa profissional e o jornalismo sério recobraram boa parte de sua confiança, não sem antes passarem por uma pequena reforma, derrubando suas barreiras de modelo comercial, priorizando assim a difusão da informação apurada, o interesse público e o bem-estar coletivo. O Jornalismo se mostra fundamental nessa crise ao fazer aquilo que é o seu papel e ainda ir além, mobilizando-se na forma de uma campanha informativa para a população e assumindo responsabilidades que inclusive deveriam vir das instituições governamentais; ele se mostra fundamental também ao dar voz e qualidade à divulgação científica. No último dia 30 de março, por exemplo, o Roda Viva, um dos mais tradicionais programas de entrevista do país conversou com o pesquisador e divulgador científico Átila Iamarino e bateu o recorde de audiência do programa nos últimos anos. Por fim, mas nem de longe menos importante, a arte e a cultura se mostram companheiras essenciais para a manutenção da nossa saúde mental de diversas formas. Seja consumindo conteúdos já disponíveis como filmes, séries, músicas, livros etc como uma forma de entretenimento, ou, seja praticando atividades como escrever, tocar um instrumento ou pintar uma tela, como uma forma de terapia. Os artistas, por sua vez resilientes e criativos também buscam alternativas para superar as dificuldades do isolamento: músicos fazem apresentações ao vivo de suas casas, professores de dança trocam o espaço do estúdio pelas aulas online, escritores conversam com seus leitores e disponibilizam livros pela internet etc. A demanda por atividades culturais não apenas não cessou, como talvez tenha aumentado. E ainda há uma rede de solidariedade para ajudar os artistas mais afetados pelo isolamento e projetos que visam garantir tanto os recursos necessários aos artistas quanto as atividades culturais, de maneira remota.


Nossa geração cresceu assustada com diversas possibilidades de fim do mundo e agora uma delas se apresenta diante de nós. Como o próprio Átila Iamarino disse na entrevista: “o mundo não vai voltar a ser o que era”. É um período muito difícil e nós temos que passar por isso, mas dentro do otimismo que a realidade pode comportar, eu espero que ele esteja certo e que isso represente o final melancólico que um mundo que desvaloriza o conhecimento merece. Dentro desse otimismo, espero que consigamos sair melhores e mais fortes para esse novo mundo, para essa nova era. E que ela seja entusiasta do conhecimento. Que o século XXI seja marcado pelo novo renascimento cultural.


Aline Mesquita

Bailarina e professora de dança

tentando sobreviver ao apocalipse com criatividade

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