• Aline Mesquita

Mahmoud Reda e seu legado para o folclore


Apresentação da dança da bengala, Saidi, dança folclórica do Egito

No dia 22 de agosto foi comemorado o dia internacional do folclore. Esse tema me é muito caro, pois sou uma apaixonada por essa sabedoria popular expressa através da dança. De acordo com o autor Carlos Rodrigues Brandão, o folclore é exatamente isso: “a expressão cultural da sabedoria de um povo; costumes, dança, música, culinária, artesanato, mitos”. Ainda segundo esse autor, a etimologia diz que sua raiz está “nas palavras de origem anglo-saxônica folk que quer dizer povo, e lore que quer dizer saber, termo que pode ser traduzido por ‘sabedoria popular’ e tudo o que advém do povo.” Quando comecei a dançar, ainda criança, mal sabia a importância que esse assunto teria na minha vida, ao ponto de se tornar o tema do meu trabalho de conclusão do curso de licenciatura em dança da UFRGS e, frequentemente, parte do meu trabalho artístico e como professora. E como não poderia deixar de ser, Mahmoud Reda seria o nome mais importante dessa história toda. Considerado o pai do folclore egípcio, esse grande artista recentemente partiu deste mundo deixando um enorme legado artístico-cultural. Pensando nas celebrações do dia do folclore, resolvi homenagear esse grande mestre e, para isso, fui um pouco além dos breves resumos de sua biografia e reuni aqui alguns trechos de entrevistas e artigos sobre sua vida e carreira (que não são encontrados em português), traduzidos livremente para a nossa língua. Espero que aproveitem essa homenagem e curtam o texto tanto quando eu curti pesquisar (as fontes estarão ao final do texto).


Quem foi Mahmoud Reda?


Mahmoud Reda nasceu em 1930 no Cairo, Egito, em uma grande família (ele era o oitavo de dez irmãos) de classe média. Seu pai foi um escritor e bibliotecário-chefe da Universidade do Cairo que, com sua esposa, criou uma família imersa em sua herança cultural e em sintonia com o modernismo que estava varrendo o Egito na época. Eles eram uma família com inclinações atlético-esportivas e artístico-musicais. O ambiente em que Mahmoud Reda cresceu foi fundamental para promover suas tendências artísticas. E seus atributos físicos (ele chegou a representar a equipe de ginástica olímpica do Egito nos Jogos Olímpicos de Helsinki em 1952) ajudaram ainda mais em suas habilidades como dançarino. A vontade de Reda de apresentar um novo gênero de dança e o grande desejo de Farida Fahmy, sua grande parceira, de ser bailarina foram um impulso para uma companhia artística de sucesso.


O Jovem Mahmoud Reda

The Reda Troupe: da família à grande ideia


E não há como falar da dança no Egito nos últimos cinquenta ou sessenta anos sem falar da Reda Troupe, como é chamada a sua Companhia de Dança, e do forte impacto que esse grupo teve do ponto de vista artístico, social e cultural. A Reda Troupe começou como um caso de família; os Redas e os Fahmys se uniram através do casamento, primeiramente de Mahmoud Reda e Nadeeda Fahmy, sua primeira esposa (que viria a falecer alguns anos depois) e mais tarde, de Farida Fahmy com o irmão mais velho de Mahmoud, Ali Reda, estreitando ainda mais os laços entre as duas famílias. A inspiração para a criação de sua própria companhia de dança veio primeiramente de seu irmão, que na adolescência já ganhava prêmios por vencer competições de dança de salão e, depois, já nos anos 50, os musicais de Hollywood com os grandes astros Fred Astaire e Gene Kelly foram as maiores referências artísticas de Reda para iniciar sua virtuosa carreira na dança.


Mahmoud Reda e sua grande parceira, Farida Fahmy

Segundo o próprio Mahmoud Reda, em entrevista concedida em 2003, nos anos 50 quando estava no final da faculdade (ele se formou em economia política) ele foi assistir a um espetáculo de um grupo de dança folclórica argentino; ao final da apresentação ele foi cumprimentar os artistas que perguntaram se ele também dançava; ele respondeu que sim e mostrou alguns passos que aprendeu assistindo aos filmes de Fred Astaire, alguns passos de seu irmão Ali e alguns movimentos de ginástica. O grupo precisava de um dançarino e então o encontrou em Mahmoud. Depois disso ele se apresentou com esse grupo em alumas cidades como Cairo, Alexandria, Roma e Paris. Nesse meio tempo apresentando folclore argentino ele teve a grande ideia: “por que não folclore egípcio?” Então ele voltou ao Cairo pensando no seu próprio grupo folclórico.


A estreia do grupo


Depois de dançar com o grupo argentino e de ter a ideia de criar sua própria companhia, em 1955, foram 4 anos até a efetiva estreia do grupo. Ele havia conhecido Nadeeda Fahmy e eles pretendiam se casar; embora ele não quisesse esperar para criar o grupo, Reda precisava trabalhar em algum lugar para ganhar dinheiro e poder iniciar a sua vida de casado, então ele trabalhou na empresa Shell e chegou a se mudar para Suez. Quando retornou, finalmente em agosto de 1959, The Reda Troupe estreou no teatro.


Para este primeiro projeto, Reda contou com a ajuda de seu irmão, que naquela época já estava trabalhando no cinema como assistente de direção, e conhecia a maior parte dos artistas dos filmes, os músicos, os designers de cenários e todo o tipo de profissional que poderia ajudar a criar um espetáculo. Outra pessoa que teria sido de grande importância nesse momento foi o pai de Farida Fahmy. Sendo professor de engenharia industrial na universidade do Cairo e conhecendo outros professores, pôde agregar conhecimento e outros aspectos alheios à arte, porém necessários. Contudo, a maior contribuição do pai de Farida provavelmente foi sua aprovação e incentivo à filha e ao grupo, numa época em que, por questões morais a arte era desvalorizada e havia grande discriminação principalmente em relação às mulheres na dança. Sendo um professor universitário, gozando do prestígio de sua carreira entre outros acadêmicos, homens de idade, ao permitir e incentivar que sua filha se tornasse uma bailarina profissional, ele ajudou a legitimar o ofício da dança profissional em seus círculos sociais, e contribuiu para mudar a percepção pública dos egípcios a respeito desses profissionais.


A irmã de Farida, Nadeeda Fahmy, esposa de Reda, foi a responsável pelo design dos figurinos para aquela primeira apresentação; os figurinos eram inovadores para a época e teriam servido de inspiração para os figurinos de outros grupos até os dias atuais. Ela também foi uma grande incentivadora dos desejos artísticos de Mahmoud Reda. E o músico e compositor, Ali Ismail, que foi apresentado ao grupo por Ali Reda, também foi um parceiro fundamental para o início da companhia. A primeira bailarina do grupo foi Farida, a quem Reda já conhecia por ser sua cunhada; ela fazia aulas de ballet e era muito boa. Os

Mahmoud e Farida

dançarinos homens foram escolhidos por Reda entre amigos e conhecidos dos clubes esportivos, pessoas a quem ele pudesse orientar e dirigir. O problema maior foi encontrar as bailarinas. Esse era um problema social, porque mulheres que dançavam não tinham boa reputação na sociedade, então as famílias não deixavam as meninas dançarem; logo, qualquer uma que aceitasse dançar, eles ficariam felizes em receber. Não era possível escolher. E assim eles fecharam o grupo inicialmente com 7 homens e 7 mulheres, e com exceção de Farida, todos sem experiência.


Havia uma certa urgência para estrear, então naquele primeiro momento não houve pesquisa; Reda usou seu próprio conhecimento de histórias regionais e criou danças novas, que não existiam no folclore egípcio. Entre as histórias que ele coreografou estavam, por exemplo, a de um vendedor de xarope que flerta com uma garota da cidade do Cairo e as garotas nessa dança usam um lenço (Melaya); essa seria, portanto, uma teatralização de uma dança que conhecemos como Melaya Laff. Uma outra história, que ele chamou de “A Flauta Mágica”, é sobre um rapaz que se apaixona por uma moça fellaha (camponesa), mas o pai da moça não gosta dele, então o rapaz toca a flauta para acalmar o homem, que dança com a música da flauta e no fim acaba por concordar com o casamento de sua filha com o rapaz. Essa também é uma das teatralizações possíveis para uma dança fellahi, que representa os camponeses.


Sucesso, processo criativo e mais sucesso


Depois do sucesso do primeiro programa e da aceitação do público, o grupo finalmente teve tempo para fazer sua pesquisa. Reda levou alguns de seus bailarinos para o Alto Egito para estudar o verdadeiro folclore. Eles levaram câmeras, gravadores, eles conversavam com as pessoas, escreviam, tinham ideias e faziam canções. Em cada cidade, eles ficavam 3 ou 4 dias; eles traziam o povo, que dançava para eles e o grupo gravava a dança, a música e escrevia histórias etc. Então agora eles tinham o folclore Egípcio verdadeiro e Mahmoud Reda dizia que aquilo era um tesouro não descoberto. Porém, ao mesmo tempo havia alguns problemas pois, seja nos passos ou na melodia, existia muita repetição. Em uma dança por exemplo, uma garota dançava e o resto das pessoas só aplaudia por uma hora; e a menina fazia um passo e a cada passo seu quadril mexia 3 vezes. Ele dizia ainda que quando você assiste a coisa real, você fica feliz porque você participa, você canta com eles, você bate palmas com eles e então você se sente feliz. Mas quando você compra um ingresso para o teatro e senta para assistir, você não espera ver isso. Qualquer coisa normal que você coloca no palco, não é normal. Segundo Reda, você não pode tirar uma árvore ou uma casa do seu lugar e colocar no palco. E o mesmo acontece com as pessoas; se você levasse os verdadeiros dançarinos folclóricos para o palco, seria esquisito, eles não saberiam para onde olhar, eles fariam o que sabem fazer, mas seria monótono, porque no palco tudo é diferente. Então ele afirmava que suas coreografias não eram folclore, mas eram inspiradas pelo folclore.


E de acordo com ele, ser inspirado pelo folclore para fazer a sua própria coreografia tem um risco, porque você muda coisas e elas se tornam outra coisa, e as pessoas podem não gostar. No seu processo criativo, ele procurava ser empático; Reda pegava um passo e se imaginava como uma daquelas pessoas. “Se eu fosse uma daquelas pessoas e quisesse fazer uma variação desse passo, o que eu faria?” Era o que ele pensava; e então fazia todas as variações possíveis para aquele passo. E se tivesse sorte, manteria o mesmo espírito, apesar das variações, e as pessoas ainda se reconheceriam na coreografia. Nas entrevistas, Reda chamava de sorte a aceitação do público pelo seu trabalho, porque ele não era tão analítico e não pensava muito no que estava fazendo enquanto criava, ele simplesmente fazia o que sentia. Mas a verdade é que todo esse processo era criterioso, sensível e empático; a sua visão artística engrandecia o folclore ao mesmo tempo que conseguia manter a sua essência, mesmo que 90% do que era apresentado fossem criações extras que não existiam na dança folclórica original.


Mahmoud Reda, já idoso, em entrevista

A virtuosa parceria com Ali Ismail


Ainda sobre o seu processo criativo, Reda dizia que a inspiração vinha de qualquer lugar. Se ele estivesse dirigindo um carro e visse uma moça andando na rua com uma roupa legal, aquilo o inspirava a criar uma dança; se ele ouvisse uma boa música, aquilo o inspirava; e se ele ouvisse uma história ou alguém contasse uma piada, aquilo também o inspirava. Mas com relação à música, ele dizia que faziam de tudo e de todas as maneiras. Vale a pena destacar a parceria criativa entre Mahmoud Reda e o músico Ali Ismail. Para a primeira performance, por exemplo, ele ainda não tinha um músico, mas tinha as ideias, tinhas os passos. Quase toda a primeira apresentação foi coreografada sem música; alguém tocava percussão para fazer as marcações apenas. Então veio Ismail, que fora apresentado por Ali Reda; ele viu as danças, anotou as marcações e então compôs. No início eles tiveram até um pouco de dificuldades, por causa da maneira como cada um marcava o ritmo para o seu trabalho, o bailarino coreógrafo e o músico, o que fez com que Ali compusesse mais música do que o necessário naquele primeiro momento. Porém, mais tarde, quando os dois já se conheciam melhor, o processo criativo de ambos os artistas tornou-se quase uma experiência com vida própria. Mahmoud dava ao músico uma ideia geral, um esboço de como seria a dança, e deixava que ele escrevesse a composição. Então o coreógrafo começava a fazer experimentos com os passos no ritmo que eles tinham combinado. Quando Ismail finalizava a composição e gravava uma versão com piano, Reda ouvia aquela versão e fazia alguns apontamentos para melhorar, mas ao mesmo tempo já usava a composição para fazer a sua coreografia de fato. Depois disso Ismail via a coreografia e dali tirava inspiração para compor mais, então ele fazia um arranjo e assim Reda tinha mais elementos para coreografar; e essa nova coreografia dava mais elementos para Ismail compor e adicionar outros instrumentos. E a cada etapa, cada um tinha novas ideias inspirado pelo trabalho do outro, que ia sendo refinado nesse processo dialético até que os dois se encaixassem perfeitamente em um trabalho único. A parceria durou algum tempo; eventualmente, Ismail se tornou famoso e começou a compor trilhas sonoras para filmes, de forma que ele não dispunha mais de tanto tempo para colaborar com a Reda Troupe, mas uma vez ou outra ele se reunia com Reda por alguns dias para trabalhar intensivamente em novas composições.


Do sucesso à aposentadoria


Dois anos após a sua estreia, em 1961, a trupe foi colocada sob os cuidados do Ministério da Cultura. Ao longo da carreira o grupo e seus bailarinos ainda participou de filmes e estrelou três filmes próprios, dirigidos por Ali Reda. Em meados dos anos 70 a companhia incluía cento e cinquenta membros, incluindo dançarinos, músicos e técnicos de figurino e teatro. O repertório da trupe incluía mais de cento e cinquenta danças. O grupo ganhou fama no Egito e visitou mais de cinquenta países. A companhia também ganhou inúmeros prêmios em festivais folclóricos em países como Áustria, Rússia, Inglaterra, Turquia e Bélgica, entre outros. Os principais artistas, Farida Fahmy, Mahmoud Reda, Ali Reda e Ali Ismail foram condecorados pelo rei Hussein da Jordânia em 1965, pelo presidente Gamal Abdel Nasser em 1967 por serviços prestados ao estado pela sua arte e pelo presidente Burguiba da Tunisia em 1973.


Ter o patrocínio do governo, que a princípio parecia ser uma coisa boa, com o tempo acabou se revelando uma armadilha para o grupo. Ao longo dos anos, o grupo cresceu dispondo dos recursos do ministério da cultura; porém, com o grupo sendo parte do governo, seus artistas sem perceber se tornaram reféns da burocracia do estado egípcio; eles eram funcionários públicos afinal. Mahmoud Reda chegou a ser vice ministro, mas por trabalhar para o estado, aos 60 anos ele foi aposentado pelo governo e afastado da sua própria companhia. De acordo com um artigo de Farida Fahmy de 2008, a Reda Trupe foi posteriormente deixada nas mãos de membros que não possuíam o mesmo impulso, talento ou tendências artísticas. Todos os professores e coreógrafos que surgiram da companhia, bem como outros grupos de dança, não haviam produzido nenhuma inovação notável até então; seus trabalhos continuavam apenas perpetuando o estilo, a técnica e os métodos de ensino de Reda. O talento e a criatividade artística dos principais artistas do grupo trouxeram uma herança de dança teatral que continua sendo uma fonte rica para todos os professores e coreógrafos. Farida Fahmy e Mahmoud Reda permanecem na memória coletiva dos egípcios. Uma memória cheia de nostalgia, admiração e orgulho.


O adeus ao mestre


Após sua aposentadoria, Reda seguiu trabalhando, viajando pelo mundo e ensinando suas danças através de diversos workshops. No Brasil, praticamente tudo o que se conhece sobre

Reda em seus workshops

o folclore egípcio e o folclore árabe em geral é derivado do trabalho de Reda. Não há como mensurar, portanto, a importância de seu conhecimento e de seu trabalho artístico na difusão cultural das danças orientais árabes. Ele falava com humildade que a aceitação de seu trabalho era por sorte; não era. A menos que ele se referisse à sorte que todos nós tivemos por ele ter nascido e crescido sob todas as influências culturais que permitiram o desenvolvimento desse grande artista. Mahmoud Reda partiu aos 90 anos de idade, no dia 10 de julho de 2020, deixando esse enorme legado artístico que ainda será estudado por muito anos.


Agradecimentos ao mestre Mahmoud Reda


Fontes:

https://www.casbahdance.org/interview-with-mahmoud-reda/

https://unmundodeluz.wordpress.com/2017/03/30/mahmoud-reda-pionero-de-la-danza-folclorica-egipcia/

http://www.faridafahmy.com/history.html

https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/109213/000950371.pdf



E é isso, pessoal! Se você leu até aqui, muito obrigada! Espero que você tenha gostado de conhecer um pouquinho do trabalho e da vida desse grande mestre, tão importante para as danças orientais. Se você gosta de folclore árabe, então compartilha o post para ajudar as colegas a conhecerem um pouco mais a fundo a história de Reda. Sinta-se à vontade para comentar o que você achou do que leu aqui, se você é apaixonada por folclore árabe e se inspira no trabalho de Mahmoud Reda etc.

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